A Brasil Game Show 2026 chegou ao fim. Realizada entre os dias 9 e 12 de outubro, no Distrito Anhembi, em São Paulo, a feira reuniu milhares de jogadores para conhecer novidades, experimentar futuros lançamentos e participar de diversas atrações. O Outra Dimensão esteve presente, acompanhando de perto o evento e conhecendo o que as empresas prepararam para o público. Agora, com a edição encerrada, chegou o momento de fazer um balanço sobre o que deu certo, o que poderia ter sido melhor e quais desafios a BGS precisará enfrentar daqui para frente. A BGS 2026 valeu a pena? O saldo foi positivo ou negativo? A resposta exige olhar além do tamanho dos estandes e considerar aquilo que realmente importa para quem decide visitar uma feira de games.
O principal acerto da BGS 2026: os jogos
Quando pensamos em uma feira de games, a primeira expectativa é bastante simples: encontrar jogos para experimentar. E, nesse aspecto, considero que a BGS 2026 cumpriu muito bem seu papel. A variedade de títulos disponíveis era bastante interessante, misturando lançamentos recentes com produções que ainda levarão meses para chegar às lojas. Talvez o público mais exigente tenha sentido falta de determinados jogos, especialmente em um ano marcado pela enorme expectativa em torno de GTA VI, mas uma análise mais cuidadosa das atrações revela que havia boas opções para diferentes perfis de jogadores.
É verdade que muitos títulos presentes na feira já estavam disponíveis comercialmente, mas não considero isso necessariamente um problema. Precisamos lembrar que vivemos em um país onde comprar videogames e jogos representa um investimento considerável. Ter a oportunidade de experimentar um título antes de decidir pela compra continua sendo algo importante, mesmo considerando que o visitante já pagou pelo ingresso. Nem todo mundo consegue acompanhar os lançamentos no momento em que chegam ao mercado, e uma feira como a BGS também serve para aproximar essas pessoas de experiências que ainda não conhecem.
Por outro lado, o grande atrativo está justamente na possibilidade de jogar algo que ainda não foi lançado. Nesse sentido, tivemos uma seleção bastante competente, incluindo Call of Duty: Modern Warfare 4, Final Fantasy VII Revelation, Alien: Isolation 2, Persona 4 Revival, Stranger Than Heaven e Crazy Taxi: World Tour, entre outros. O novo Call of Duty, por exemplo, estava disponível tanto no estande da Nintendo, com a versão para Switch 2, quanto no espaço da Monster Energy, que oferecia partidas para o público. Mesmo considerando que o jogo já havia passado por testes abertos, sua presença ampliava as opções de quem visitava o evento.
SEGA foi o grande destaque, mas a Nintendo também teve seus méritos

Se fosse necessário escolher uma empresa como o maior destaque da BGS 2026, minha escolha seria a SEGA. A companhia apresentou seis jogos ainda inéditos, com diversas estações disponíveis ao público e uma seleção que contemplava gêneros bastante diferentes. Tivemos a oportunidade de experimentar vários desses títulos durante nossa cobertura, incluindo Crazy Taxi: World Tour, Persona 4 Revival, Alien: Isolation 2 e Stranger Than Heaven. Todos renderam matérias próprias no Outra Dimensão, nas quais detalhamos nossas primeiras impressões.
Além da quantidade de jogos, a SEGA também investiu na presença de profissionais envolvidos diretamente no desenvolvimento de suas produções. Kenji Kanno, criador de Crazy Taxi, esteve no evento, assim como integrantes da equipe de Alien: Isolation 2. São participações que acrescentam valor à feira, principalmente porque aproximam o público brasileiro dos responsáveis por jogos aguardados mundialmente. A empresa ainda aproveitou a oportunidade para revelar um mapa inspirado no Brasil em Crazy Taxi: World Tour, uma novidade que reforçou a importância da feira como espaço para anúncios direcionados ao nosso mercado.

A Nintendo também merece reconhecimento. Com um dos maiores estandes do evento, a empresa reuniu diversas estações de demonstração e apostou em atrações para diferentes públicos. O principal lançamento inédito apresentado foi Nintendo Switch Sports Resort, que ocupava uma área de destaque e permitia experimentar diferentes modalidades esportivas. A companhia também trouxe Charles Martinet para encontros com os fãs, além de contar com a presença de executivos internacionais acompanhando a feira.
É possível questionar a ausência de outros títulos aguardados da Nintendo, mas também precisamos colocar as expectativas em perspectiva. Nem sempre as empresas disponibilizam seus maiores projetos para testes públicos, mesmo em grandes eventos internacionais. Por isso, embora considere que a Nintendo realizou uma boa participação, a SEGA conseguiu se destacar pela variedade de novidades, pelas demonstrações e pelo conteúdo apresentado. Para mim, foi a empresa que melhor aproveitou a BGS 2026.
Square Enix trouxe um grande jogo, mas pecou na estrutura
Outro ponto positivo foi a presença da Square Enix, principalmente pela oportunidade de experimentar Final Fantasy VII Revelation, capítulo que encerrará a trilogia de remakes de Final Fantasy VII. Estamos falando de um dos lançamentos mais aguardados de 2027, com estreia prevista para abril, e a possibilidade de jogá-lo com tanta antecedência certamente representou uma das principais atrações da BGS. Entretanto, a maneira como a demonstração foi disponibilizada acabou deixando a desejar.

O estande da Square Enix era bastante pequeno, especialmente considerando a importância dos jogos apresentados. Para Final Fantasy VII Revelation, havia apenas três estações de demonstração, enquanto as demais estavam dedicadas a Final Fantasy Resonance. Naturalmente, a procura pelo novo capítulo da saga de Cloud era enorme, resultando em filas bastante longas para uma experiência relativamente curta. É excelente que a empresa tenha conseguido trazer uma demonstração tão importante para o público brasileiro, mas seria ainda melhor se houvesse uma estrutura capaz de atender mais visitantes.
Uma BGS menor e com espaços que poderiam ser mais bem aproveitados
Se a seleção de jogos foi positiva, a estrutura geral do evento provocou uma impressão diferente. Desde o primeiro dia, quando estivemos presentes para a cobertura de imprensa, já era possível perceber uma quantidade considerável de reclamações sobre o tamanho da feira. De fato, a BGS 2026 estava mais enxuta, com menos estandes e uma sensação de que determinadas áreas do pavilhão poderiam ter sido mais bem aproveitadas.

Entretanto, aqui considero importante fazer uma ressalva. A redução na quantidade de estandes não significou necessariamente uma queda proporcional na qualidade das atrações. Vi muitas reclamações sobre a presença de espaços que supostamente não combinavam com um evento de games, mas não considero que esse tenha sido o principal problema desta edição. A seleção de empresas presentes continuou oferecendo experiências interessantes. O que realmente fez falta foram algumas atrações que ajudavam a tornar a feira mais diversificada.
Outra ausência que senti foi a de empresas de periféricos e tecnologia, que tradicionalmente apresentavam equipamentos, acessórios e novidades relacionadas ao universo dos games. Esse segmento pareceu consideravelmente mais fraco em 2026, reduzindo as possibilidades de exploração para quem queria conhecer algo além dos próprios jogos.

A praça de alimentação também chamou bastante atenção, principalmente pelas dimensões. Uma área enorme do pavilhão estava dedicada a mesas e estabelecimentos comerciais, o que naturalmente provocou questionamentos sobre o espaço que poderia ter sido ocupado por outras atrações. Por outro lado, precisamos lembrar que a falta de lugares para descansar e se alimentar já foi motivo de reclamação em edições anteriores. Dessa vez, espaço não faltou. O problema, portanto, não está necessariamente na existência de uma praça de alimentação grande, mas na proporção que ela acabou representando dentro de uma feira que já contava com menos estandes.

E, falando em alimentação, os preços estavam longe de ser convidativos. Entre as opções que encontrei, um lanche custava em torno de R$ 45, enquanto uma bebida poderia acrescentar aproximadamente R$ 20 à conta. Isso significa gastar cerca de R$ 65 para fazer uma refeição relativamente simples dentro do evento, valor que pesa bastante quando somado ao ingresso e aos demais custos de uma visita. Não considero que essa seja uma situação exclusiva da BGS, já que preços elevados são recorrentes em grandes eventos, mas isso não impede que seja apontada como um aspecto negativo da experiência.
Os jogos independentes mereciam mais atenção
Outro ponto que merece crítica é o espaço dedicado aos jogos independentes. Em uma edição com menos estandes e áreas disponíveis para outras atividades, acredito que a BGS poderia ter aproveitado melhor a oportunidade para dar visibilidade aos desenvolvedores menores. Infelizmente, a impressão foi de que os indies continuaram bastante afastados das principais atrações, reunidos em espaços simples e pouco chamativos.
Isso é especialmente preocupante porque uma feira de games também deveria funcionar como uma vitrine para produções que não possuem o mesmo poder de divulgação das grandes empresas. Um visitante pode chegar interessado em um lançamento conhecido e descobrir, durante o passeio, um jogo independente que jamais teria encontrado de outra maneira. Para isso acontecer, porém, é necessário criar condições para que essas produções despertem a curiosidade de quem passa pelos corredores. A BGS poderia investir em uma apresentação mais atrativa e em uma integração maior desses desenvolvedores com o restante do evento.
Palcos, cosplayers e convidados: atrações que precisam encontrar seu espaço
Além dos estandes e da praça de alimentação, a BGS 2026 contou com diversos palcos distribuídos pelo pavilhão. Eles receberam apresentações, interações com visitantes, campeonatos e atividades envolvendo influenciadores. Durante nossa passagem pela feira, especialmente na segunda-feira, quando o feriado atraiu um público maior de famílias e crianças, foi possível observar uma movimentação considerável nessas atrações. Entretanto, também ouvi reclamações de visitantes que consideravam excessivo o espaço ocupado pelos palcos em comparação à quantidade de jogos disponíveis.

A presença dessas atividades não é necessariamente negativa. A BGS há muito tempo deixou de ser apenas um lugar para experimentar videogames e passou a reunir diferentes aspectos da cultura gamer. O público que acompanha campeonatos, influenciadores e concursos também faz parte do evento. O desafio está em encontrar um equilíbrio, para que essas atrações complementem os jogos em vez de transmitir a impressão de que estão simplesmente ocupando o espaço deixado por empresas ausentes.
Os cosplayers, por exemplo, continuam sendo uma das partes mais interessantes da experiência. A organização investe em concursos e atividades direcionadas a esse público, e o resultado aparece nos corredores. Durante a feira, encontrei fantasias impressionantes, incluindo uma caracterização de Leon, de Resident Evil, com um nível de cuidado que chamava atenção pela roupa, maquiagem e cabelo. São pessoas que dedicam tempo e recursos para representar seus personagens favoritos e acabam se tornando parte fundamental da identidade da BGS. Muitas vezes, são justamente elas que transformam um passeio pelos corredores em uma experiência mais divertida.

Por outro lado, senti falta de convidados internacionais de maior reconhecimento. Não se trata de diminuir a importância dos profissionais que participaram desta edição, mas de reconhecer que a BGS já conseguiu reunir nomes capazes de atrair públicos enormes por si só. Em 2026, a programação pareceu menos impactante nesse aspecto, com atrações anunciadas relativamente perto do evento. É possível que as dificuldades enfrentadas na edição anterior tenham pesado nas decisões da organização, mas o resultado foi uma seleção de convidados com menor capacidade de gerar expectativa entre o público geral.

O ingresso valeu a pena? E visitar a BGS por vários dias?
Outro aspecto que merece reflexão é a relação entre o preço do ingresso e o conteúdo oferecido. Considerando tudo o que encontrei na BGS 2026, acredito que um único dia seria suficiente para aproveitar boa parte das principais atrações. Evidentemente, isso depende dos interesses de cada visitante, das filas e da programação escolhida, mas não senti que o evento apresentasse conteúdo suficiente para justificar, de maneira geral, a compra de ingressos para vários dias.
A BGS precisa encontrar um novo caminho
Talvez o maior desafio da Brasil Game Show não esteja diretamente relacionado ao que aconteceu em 2026, mas ao futuro dos grandes eventos presenciais de games. A indústria mudou consideravelmente nos últimos anos. Muitas empresas passaram a priorizar apresentações digitais, anúncios próprios e estratégias de comunicação que não dependem mais da participação em feiras. Além disso, preparar uma demonstração jogável exige recursos que os estúdios poderiam direcionar ao desenvolvimento de seus projetos. Essas mudanças não afetam apenas a BGS, mas eventos de diferentes partes do mundo.
Por isso, não considero justo atribuir todas as ausências exclusivamente à organização brasileira. Entretanto, também não podemos ignorar que cabe à BGS encontrar maneiras de convencer as empresas de que participar da feira continua sendo interessante. Senti falta, por exemplo, de futuros lançamentos da Capcom e de uma participação mais expressiva de outras grandes marcas. PlayStation e Xbox também estão cada vez mais distantes dos grandes eventos presenciais, embora ainda participem de determinadas ocasiões. Recuperar parte dessas empresas seria importante para ampliar a variedade de atrações e fortalecer o interesse do público.
Veredito: a BGS 2026 foi boa, mas deixou um sinal de alerta
No balanço geral, considero que a BGS 2026 cumpriu bem sua principal função: permitir que o público conhecesse e experimentasse jogos. A seleção de lançamentos foi um dos maiores acertos da feira, com demonstrações importantes e oportunidades que nem sempre estão disponíveis para os jogadores brasileiros. SEGA e Nintendo lideraram essa experiência, enquanto a Square Enix também contribuiu com uma atração de grande relevância. Quem visitou o evento com o objetivo de jogar certamente encontrou boas opções para aproveitar.
Entretanto, é impossível ignorar os problemas. A redução na quantidade de estandes, os espaços excessivamente dedicados a determinadas atividades, os preços elevados da alimentação e a pouca valorização dos jogos independentes revelam pontos que precisam ser revistos. Também ficou a sensação de que faltaram empresas, atrações e convidados capazes de tornar a experiência mais completa. A BGS não foi um evento ruim, mas poderia ter sido consideravelmente melhor.
Brasil Game Show 2027
A edição de 2027 já está confirmada para acontecer entre os dias 9 e 12 de outubro, novamente no Distrito Anhembi, e os ingressos começaram a ser comercializados. A organização terá, portanto, mais uma oportunidade para mostrar como pretende responder às mudanças da indústria e às críticas do público. O desafio não será apenas trazer mais estandes, mas oferecer conteúdo que realmente justifique a presença dos visitantes.

















