Depois de trabalhar durante quase três décadas na Capcom, participando de franquias como Resident Evil, Devil May Cry e Dragon’s Dogma, Hiroyuki Kobayashi decidiu seguir um novo caminho e fundou a GPTRACK50 em 2022. O estúdio reúne veteranos da indústria e apresenta seu primeiro grande projeto original com Stupid Never Dies, um RPG de ação desenvolvido sob a direção de Eiichiro Sasaki e publicado pela SEGA. A proposta é bastante peculiar, misturando elementos de roguelite, hack and slash, zumbis, vampiros, criaturas mitológicas e muitos outros monstros em uma aventura que não tem medo de abraçar o absurdo. Tivemos a oportunidade de jogar essa nova experiência e agora contamos se Stupid Never Dies vale a pena em nossa review completa.
Uma loucura que poderia ser melhor contada
A premissa de Stupid Never Dies é bastante simples: um zumbi chamado Davy se apaixona por uma humana que está congelada e precisa enfrentar centenas de inimigos em masmorras acessadas por um vaso sanitário no banheiro de um shopping para conseguir salvá-la. Se apenas essa descrição já parece estranha, as coisas ficam ainda mais malucas conforme conhecemos os personagens que ajudam o protagonista durante a jornada. O shopping funciona como a área central do jogo, onde encontramos diferentes NPCs responsáveis por apresentar novas mecânicas e contribuir para o desenvolvimento da história. Já os inimigos incluem desde lagartos, harpias, esqueletos, vampiros e seres inspirados em diferentes mitologias.

A verdade é que Stupid Never Dies não tem medo de apostar em uma mistura completamente maluca de conceitos e personagens. De certa forma, isso até funciona e ajuda a construir uma identidade própria, mas o grande problema está na maneira como tudo é apresentado ao jogador. Especialmente durante a primeira hora, ou até mesmo nas duas primeiras horas, o excesso de diálogos prejudica bastante o ritmo da aventura. São inúmeras linhas de texto que não apenas tentam explicar a história, mas também apresentam uma quantidade enorme de informações sobre as mecânicas do jogo.
Em vez de situar o jogador e ensinar gradualmente seus sistemas, Stupid Never Dies parece querer explicar tudo de uma vez, sem permitir que tenhamos tempo suficiente para nos acostumar com aquilo que deveria ser o grande destaque da experiência: jogar. Essa abordagem torna o início desnecessariamente cansativo, principalmente porque muitos dos conceitos apresentados poderiam ser aprendidos naturalmente durante as primeiras batalhas. Felizmente, depois desse começo turbulento, o jogo reduz a quantidade de explicações e passa a dedicar mais tempo ao seu gameplay. O problema é que nem tudo melhora quando finalmente temos liberdade para aproveitar os combates.
Um ciclo de repetições que cansa rapidamente

A essência de Stupid Never Dies está em explorar masmorras divididas em diferentes andares, que funcionam como salas geradas aleatoriamente, seguindo uma estrutura bastante conhecida dos roguelites. Durante cada incursão, precisamos enfrentar inimigos, obter equipamentos, desbloquear melhorias e subir de nível utilizando a experiência recebida nas batalhas. Boa parte dessa evolução fica restrita àquela tentativa, mas ao concluir ou perder uma incursão conseguimos preservar determinados recursos que permitem realizar melhorias permanentes no personagem.
Até aqui, nada muito diferente do que encontramos em outros jogos do gênero. O problema está em uma escolha que, na minha percepção, acaba prejudicando bastante o ritmo da aventura. Em Stupid Never Dies, cada incursão ao vaso sanitário — não consegui evitar essa expressão — possui um limite de tempo, mas o jogo também impede que você continue avançando livremente pelas masmorras. É quase como uma divisão por capítulos, em que cada etapa permite alcançar apenas determinado andar antes de obrigar o jogador a retornar ao shopping para continuar a história.

Não importa quanto tempo ainda resta ou o quanto seu personagem está preparado para continuar. Ao alcançar o limite estabelecido, você precisa interromper a exploração, retornar à área central, conversar com os NPCs e depois entrar novamente nas masmorras para avançar mais um trecho. Essa interrupção constante acaba quebrando o ritmo e transforma a progressão em algo excessivamente repetitivo. A situação só não fica ainda mais cansativa porque existe a possibilidade de pular alguns andares, permitindo começar uma nova incursão em uma região mais avançada, mesmo que isso signifique enfrentar inimigos acima do seu nível. Ainda assim, chega um momento em que a sensação é de estar preso em um ciclo de repetições forçadas.

Na minha opinião, seria muito mais interessante se o jogo permitisse explorar as masmorras livremente, utilizando o tempo disponível como principal limitação. Dessa forma, caberia ao jogador decidir até onde conseguiria avançar antes de retornar ao shopping. A estrutura atual acaba retirando parte dessa liberdade e prejudica justamente um dos aspectos mais importantes de um roguelite: a vontade de começar outra tentativa para descobrir até onde podemos chegar.
Combates que não conseguem acompanhar as boas ideias

Outro problema que torna essa repetição ainda mais cansativa está no próprio sistema de combate. Apesar de toda a criatividade apresentada na construção do mundo e dos inimigos, Stupid Never Dies oferece um combate relativamente raso, que não conseguiu me conquistar. Inicialmente, temos basicamente dois tipos de ataques, um fraco e outro forte, utilizados para executar combinações que rapidamente passam a se repetir. Conforme avançamos, novas possibilidades são adicionadas, incluindo habilidades com tempo de recarga, ataques especiais e transformações em diferentes monstros.
Essa última mecânica é uma das ideias mais interessantes do jogo. Como controlamos um zumbi, nada mais justo do que utilizar sua mordida para recuperar vida e até absorver habilidades dos inimigos. Ao derrotar determinadas criaturas, podemos assumir suas formas e utilizar seus poderes durante as batalhas, o que teoricamente deveria acrescentar bastante variedade ao combate. O problema é que muitas dessas transformações não funcionam tão bem quanto deveriam e, em determinadas situações, chegam a atrapalhar completamente as lutas.

Não foram poucas as vezes em que me transformei e simplesmente não conseguia causar dano aos inimigos. Em algumas situações, isso acontecia porque os adversários voavam e ficavam fora do alcance dos ataques. Em outras, mesmo acertando os golpes, o jogo parecia não registrar qualquer dano, por motivos que até agora não consegui compreender. A situação também se repete com as Harpias, que estão entre os inimigos mais irritantes de enfrentar. Como elas permanecem voando, acertá-las pode ser bastante complicado, principalmente quando se posicionam sobre trechos do cenário com buracos. Tentar alcançá-las pulando muitas vezes significava acabar caindo, algo especialmente frustrante em um jogo no qual estamos constantemente lutando contra o relógio.
De maneira geral, fica a sensação de que a equipe dedicou bastante criatividade à construção de criaturas diferentes, mas não conseguiu equilibrar adequadamente suas habilidades e interações durante os combates. O resultado é um sistema que oferece várias possibilidades no papel, mas que nem sempre funciona de maneira satisfatória na prática.
Muitas possibilidades para fortalecer seu zumbi

Outra característica importante de Stupid Never Dies está na personalização do protagonista por meio de equipamentos. Durante a aventura, podemos obter diferentes peças para a cabeça, os braços e as pernas de Davy, modificando não apenas seus atributos, mas também oferecendo bônus e habilidades especiais. Essa mecânica permite criar combinações bastante variadas e adaptar o personagem de acordo com as necessidades de cada jogador.

Durante as incursões pelas masmorras, também encontramos materiais que podem ser utilizados na fabricação dessas peças, além de recursos que ajudam a desbloquear novas melhorias permanentes. Parte dessa progressão acontece em uma lanchonete localizada no shopping, onde podemos investir energia para liberar benefícios que posteriormente aparecem de maneira aleatória ao subir de nível ou encontrar determinados itens durante as incursões. É um sistema que acrescenta novas possibilidades de evolução e incentiva a busca por recursos.

A variedade de equipamentos e melhorias é relativamente grande, permitindo montar diferentes builds e experimentar combinações de habilidades. Entretanto, mais uma vez, essas possibilidades acabam prejudicadas pela estrutura excessivamente limitada das masmorras. Mesmo quando encontramos uma combinação interessante e nosso personagem está funcionando bem durante os combates, somos obrigados a interromper a progressão ao alcançar o limite daquela etapa. É uma escolha que enfraquece o incentivo para continuar experimentando os sistemas que o próprio jogo oferece.

Uma identidade que chama a atenção
Visualmente, Stupid Never Dies apresenta gráficos relativamente simples, algo compreensível para uma produção que não conta com o mesmo orçamento dos grandes jogos AAA. Entretanto, isso não significa que sua apresentação seja ruim. Pelo contrário, a direção de arte é um dos aspectos que mais chamam a atenção, especialmente pela maneira como combina o visual dos personagens, a construção dos cenários e a identidade dos menus. Existe uma personalidade bastante evidente em praticamente todos os elementos da apresentação, que conversa diretamente com a proposta absurda da aventura.

O mesmo entusiasmo, infelizmente, não se estende completamente ao áudio. O jogo apresenta boas músicas e até oferece um DJ para selecionar o que queremos escutar, mas durante boa parte da experiência tive a sensação de que a trilha sonora e o gameplay não conversavam tão bem quanto poderiam. Os combates acabam ficando monótonos em vários momentos e senti falta de uma apresentação sonora mais impactante, capaz de acompanhar o ritmo das batalhas e tornar os confrontos mais empolgantes.

Para esta análise, joguei Stupid Never Dies no PlayStation 5 Pro e não encontrei problemas significativos de desempenho. O jogo oferece dois modos gráficos: qualidade, que trabalha com foco nos 30 quadros por segundo, e desempenho, que busca atingir os 60 quadros por segundo. Optei pela segunda alternativa durante os testes, pois acredito que esse tipo de jogo se beneficia muito mais de uma experiência fluida do que de pequenos ganhos na qualidade visual. Nesse aspecto, o resultado foi satisfatório e não encontrei problemas técnicos que comprometessem a jogabilidade.
Outro problema está na localização para o português, que apresenta algumas inconsistências. Apesar de contar com tradução, diversos elementos e informações exibidos na tela continuam em outro idioma, o que pode gerar confusão para alguns jogadores. É uma falha que chama a atenção, especialmente em um jogo que apresenta tantas mecânicas e sistemas diferentes para aprender.

Conclusão – Stupid Never Dies vale a pena?
Stupid Never Dies apresenta uma proposta curiosa, divertida em seu conceito e com uma identidade visual bastante interessante. Infelizmente, essas qualidades não são suficientes para compensar o combate pouco envolvente e a progressão excessivamente repetitiva, que tornam a aventura cansativa em poucas horas. É uma pena, porque existe criatividade de sobra aqui, mas falta equilíbrio para transformar essas boas ideias em uma experiência realmente cativante. Resta torcer para que futuras atualizações consigam melhorar o ritmo e aproveitar melhor o potencial do jogo.
Review: Stupid Never Dies – Vale a pena?
Stupid Never Dies aposta em uma proposta criativa e uma identidade visual marcante, mas não consegue transformar suas boas ideias em uma experiência envolvente. O combate limitado e a repetição excessiva tornam a aventura cansativa, apesar das interessantes possibilidades de personalização.
Pontos positivos
- Direção de arte criativa e identidade visual marcante.
- Boa variedade de equipamentos e possibilidades de personalização.
- Proposta original e personagens bastante curiosos.
Pontos negativos
- Combate pouco envolvente e transformações desequilibradas.
- Incursões excessivamente repetitivas e progressão limitada.
- Excesso de diálogos e explicações no início.
- Trilha sonora pouco integrada aos combates.
- Problemas na localização com vários termos sem tradução.
A análise de Stupid Never Dies foi produzida graças a uma cópia digital do jogo para PS5 e fornecida pela GPTRACK50.
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